quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Castelo de Vidro


Quando, finalmente, a chuva chegava, o céu escurecia e o ar ficava pesado. Gotas de chuva do tamanho de bolas de nuvem despencavam das nuvens. Certos pais temiam que seus filhos fossem atingidos por um raio, mas mamãe e papai nunca se preocuparam e nos deixavam sair e brincar na chuva morna e torrencial. Brincávamos de lutar na água, cantávamos e dançávamos. Enormes descargas de raios detonavam nas nuvens baixas, e trovões faziam a terra tremer. Nós ficávamos ofegantes vendo os raios mais espetaculares, como se estivéssemos todos assistindo a um show de fogos de artifício. Depois do temporal, papai nos levava até os riachos, e testemunhávamos a inundação repentina que atravessava a terra, trovejando. No dia seguinte, os cactos saguaros e os figos-da-índia estavam inchados de beber tudo o que podiam, porque sabiam que, provavelmente, levaria muito tempo até a próxima chuvarada.

A gente era meio que nem os cactos. Comia de maneira irregular e, quando comia, se entupia. Uma vez, quando morávamos em Nevada, um trem cheio de melões que estava indo para o leste descarrilou. Eu nunca tinha comido melão antes, mas papai trouxe engradados e mais engradados de melão cantalupo. Comemos melão fresco, melão cozido e até melão frito. Outra vez, na Califórnia, os catadores de uva entraram em greve. Os donos dos vinhedos deixaram as pessoas colherem suas próprias uvas por dez centavos o quilo. Fizemos uns 160 quilômetros de estrada até o vinhedo, onde as uvas estavam tão maduras que estavam quase explodindo no pé, em cachos maiores do que a minha cabeça. Enchemos todo o carro de uvas verdes - a mala e até o porta-luvas - e papai empilhou tantos cachos nos nossos colos que quase não se via nada à frente. Durante muitas semanas, comemos uva no café-da-manhã, no almoço e no jantar.

Comprei o livro da jornalista norte-americana Jeannete Walls em março de 2009. De lá para cá, já deixei " O Castelo de Vidro" na mão de várias pessoas do bem (e que constumam devolver o que lhes foi emprestado). A obra de Jeannete Walls está no rol das autobiografias e ficou por vários anos na lista dos livros mais vendidos do The New York Times - o que para mim não quer dizer nada, afinal, não me guio por esta fórmula na hora de comprar e ler um livro. Fui pega mesma foi pela orelha! Que não mentiu em nada ao tratar as memórias de Jeannete Walls como um impressionante relato de superação e amor. Na obra, lemos histórias de uma família que aprendeu a criar finais felizes, independente de qualquer dissabor, mas também o quanto é preciso de firmeza e força de vontade para superar a pobreza, a fome e até o desprezo dos próprios pais. Livro para ser lido, relido e guardado com carinho.

Os Monólogos da Vagina


- A vagina tem cheiro de quê?

Terra.
Lixo molhado.
Deus.
Água.
Manhã novinha em folha.
Profundidade.
Gengibre doce.
Suor.
Depende.
Almíscar.
De mim.
Sem cheiro, me disseram.
Abacaxi.
Essência de cálice.
Paloma de Picasso.
Cravo e Canela.
Rosas.
Floresta de jasmim almiscarado, profunda, profunda floresta.
Umidade de musgo.
Doce delioso.
Oceano Pacífico.
Alguma coisa entre peixe e lírios.
Pêssegos.
Bosques.
Fruto maduro.
Chá de kiwi-morango.
Peixe.
Céu.
Vinagre de água.
Luz, licor doce.
Queijo.
Oceano.
Sexy.
Esponja.
O princípio.


Obra-prima de Eve Ensler, "Os Monólogos da Vagina" é muito mais comentado do que lido. Muitos sabem que a obra existe e até tecem comentários diversos sobre a mesma, sem que nunca tenham, de fato, passado uma única vista sobre o livro. O que tenho em mãos comprei no ano passado, numa promoção em João Pessoa. Não parecia publicação nova e já possuía um certo ar de sebo em suas páginas. A obra, na verdade, que virou espetáculo de grande público no Brasil, é uma adaptação do monólogo criado por Eve Ensler e que acordou muitas platéias por aí. Tem poucas páginas e surprende por mostrar o quanto a região do "lá embaixo" ainda é tida como tão incerta e veladamente proibida de ser dita, exceto sob forma de sussurro. Vagina, lábios, vulva, clitóris... existem nos dicionários, nas enciclopédias, mas não assumem a força criadora desse órgão tão maravilhoso e que assusta as pessoas à simples menção do seu próprio nome: vagina, vagina, vagina. Como diz a autora: "Eu digo 'vagina', porque quero que as pessoas reajam".

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Menino do Dedo Verde


- Recomecemos nossa lição. Que é preciso para lutar contra a miséria e suas terríveis consequências? Pense um pouco... É preciso uma coisa que começa com a letra O.
- Ouro?
- Não. É preciso ordem!
Tistu permaneceu um instante calado. Não parecia muito convencido. E, quando acabou de refletir, ele disse:
- Esta sua ordem, Sr. Trovões, o senhor tem certeza de que ela existe? Eu não acredito.
As orelhas do Sr. Trovões ficaram tão vermelhas, tão vermelhas, que já não pareciam orelhas, mas tomates.
- Porque se a ordem existisse - prosseguiu Tistu na maior calma - não haveria miséria.

Tistu é o maravilhoso personagem do livro "O Menino do Dedo Verde", obra de Maurice Druon,que acabei de comprar para Pedro, meu filho de 6 anos. Ainda menina, eu adorava ler e reler esse livro. E o encantamento continua com meu filhote, que passou dias e mais dias sonhando que colocava o próprio polegar em muros, portas e castelos afora, também querendo transformar o mundo. Na edição de número 88, com tradução de D. Marcos Barbosa pela José Olympio Editora, "O Menino do Dedo Verde" continua seduzindo crianças e adultos de todo o mundo. Uma delícia só!

Mulheres de Cabul



"Eu me formei em Direito na universidade, e trabalhava no Ministério da Justiça antes que fôssemos proibidas de trabalhar. Em casa, eu não podia fazer nada. Ficava entediada e frustrada. Que desperdício terrível, depois de tanto estudo!".

O relato acima é de Latifa, 47 anos. Ela é uma das várias mulheres retradas pela fotógrafa internacional Harriet Logan no livro "Mulheres de Cabul", publicado pela Geração Editorial. Seja nas imagens, seja nos textos, a realidade do Afeganistão antes e pós-Taleban é sempre forte. Doi, vem como um tapa inesperado na cara e nos força a repensar o que tem sido feito da humanidade. O Taleban proibiu pipas, fotografias, retratos, música, tambores no Afeganistão. As mulheres não podiam sair de suas residências, tampouco trabalhar ou frequentar escolas. O riso também era vetado em público e todos, todos, todos, deveriam rezar.