
Quando, finalmente, a chuva chegava, o céu escurecia e o ar ficava pesado. Gotas de chuva do tamanho de bolas de nuvem despencavam das nuvens. Certos pais temiam que seus filhos fossem atingidos por um raio, mas mamãe e papai nunca se preocuparam e nos deixavam sair e brincar na chuva morna e torrencial. Brincávamos de lutar na água, cantávamos e dançávamos. Enormes descargas de raios detonavam nas nuvens baixas, e trovões faziam a terra tremer. Nós ficávamos ofegantes vendo os raios mais espetaculares, como se estivéssemos todos assistindo a um show de fogos de artifício. Depois do temporal, papai nos levava até os riachos, e testemunhávamos a inundação repentina que atravessava a terra, trovejando. No dia seguinte, os cactos saguaros e os figos-da-índia estavam inchados de beber tudo o que podiam, porque sabiam que, provavelmente, levaria muito tempo até a próxima chuvarada.
A gente era meio que nem os cactos. Comia de maneira irregular e, quando comia, se entupia. Uma vez, quando morávamos em Nevada, um trem cheio de melões que estava indo para o leste descarrilou. Eu nunca tinha comido melão antes, mas papai trouxe engradados e mais engradados de melão cantalupo. Comemos melão fresco, melão cozido e até melão frito. Outra vez, na Califórnia, os catadores de uva entraram em greve. Os donos dos vinhedos deixaram as pessoas colherem suas próprias uvas por dez centavos o quilo. Fizemos uns 160 quilômetros de estrada até o vinhedo, onde as uvas estavam tão maduras que estavam quase explodindo no pé, em cachos maiores do que a minha cabeça. Enchemos todo o carro de uvas verdes - a mala e até o porta-luvas - e papai empilhou tantos cachos nos nossos colos que quase não se via nada à frente. Durante muitas semanas, comemos uva no café-da-manhã, no almoço e no jantar.
Comprei o livro da jornalista norte-americana Jeannete Walls em março de 2009. De lá para cá, já deixei " O Castelo de Vidro" na mão de várias pessoas do bem (e que constumam devolver o que lhes foi emprestado). A obra de Jeannete Walls está no rol das autobiografias e ficou por vários anos na lista dos livros mais vendidos do The New York Times - o que para mim não quer dizer nada, afinal, não me guio por esta fórmula na hora de comprar e ler um livro. Fui pega mesma foi pela orelha! Que não mentiu em nada ao tratar as memórias de Jeannete Walls como um impressionante relato de superação e amor. Na obra, lemos histórias de uma família que aprendeu a criar finais felizes, independente de qualquer dissabor, mas também o quanto é preciso de firmeza e força de vontade para superar a pobreza, a fome e até o desprezo dos próprios pais. Livro para ser lido, relido e guardado com carinho.
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